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Púlpito ou Picadeiro?

Pra quem ainda não sabe, sou filho de pastor, nasci e me criei dentro da igreja... Em razão disso tive a oportunidade de conhecer várias pessoas, várias outras igrejas, congregações etc...

Ao longo da minha vida, pude observar que o púlpito, a igreja, locais de reverência e adoração, têm-se tornado verdadeiros picadeiros, onde o ministro de louvor, do evangelho, tem tomado posturaras comparáveis a dos profissionais de circo.

Em 1 Ts. 5:8 o Apóstolo Paulo diz: “Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação”. Ora, fazer uso do altar para fazer brincadeiras e piadinhas bobas, constrangendo as pessoas, não me parece ser uma couraça da fé, e muito menos do amor de Deus.

Comendo carne moída

Em meio a tantas idiotices vamos encontrar igualmente verdades irrefutáveis
(Umberto Eco no livro O Pêndulo de Foucault)

Pediram-me para escrever sobre um DVD que alerta os cristãos a respeito de um suposto complô mundial de um grupo denominado Illuminati. Relutei. Não sou de escrever de forma superficial, gosto de esquadrinhar o assunto, dissecar as entranhas das questões abordadas nos meus artigos. E este é um tema sobre o qual, sinceramente, eu não gostaria de me debruçar. No passado escrevi muito sobre isso, chegando a participar de várias palestras. A cada novo evento, desgastava-me diante da ingenuidade dos meus interlocutores.

O leopardo

TOMASI DI LAMPEDUSA, Giuseppe. O leopardo. Porto Alegre: L&PM, 1983. 206 p. 


O leopardo é uma obra do Príncipe Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Duque de Parma. O romance foi escrito entre 1955 e 1957 enquanto definhava de uma doença que o mataria, em julho de 1957, logo após concluir a obra. O texto é narrativo e com uma forte descrição e marcante detalhamento dos cenários e ambientes em que a obra se desenrola.

O romance, num primeiro instante, se passa em Villa Salina, na atual província de Palermo, região Siciliana, Itália. Símbolo da família dos Salinas, o Leopardo é atribuído, também, ao Príncipe Dom Fabrizio, personagem principal da obra. Dom Fabrizio é descrito como um chefe de família, amante da matemática e astronomia. Com frequência, o Príncipe é referenciado no texto em batalhas internas, entre ser rude, para com seus interlocutores, ou amável, vencendo quase sempre sua amabilidade.

Situada nos arredores de Villa Sallina, está a Villa Falconeri, pertencente a Tancredi, sobrinho do Príncipe. Tancredi Falconeri é descrito como um rapaz astuto, bem humorado e irreverente, características que arrebataram o coração do seu tio, Dom Fabrizio. O jovem Falconeri participou da tomada de Sicilia, junto com os homens de Garibaldi. Após a tomada da ilha, pela sua atuação em campo de batalha, foi-lhe conferido o título de Capitão.

Na temporada de férias, de agosto a novembro de 1860, os Salinas viajaram à Donnafugata, descrita no romance com um enorme palácio, com vários pátios e jardins, entre sua construção, além de imensos salões e inúmeros quartos. Nesse ponto se inicia a história de amor entre Tancredi e Angélica, filha do prefeito local. O Príncipe Salina via nela uma oportunidade única para seu sobrinho, falido pela má administração de seu falecido pai, de se levantar política e financeiramente.

Dom Fabrizio veio a falecer em julho (mesmo mês que o autor) de 1883. Em seu leito de morte, estava rodeado por suas filhas, Concetta e Carolina, seu neto, filho de Concetta, Fabrizietto, seus sobrinhos Tancredi e Angélica. A história se encerra em maio de 1910, no mesmo local onde teve início, Villa Salina, com a visita do Sumo Pontífice à capela mantida pelas três irmãs, filhas do Príncipe de Salina.

Em uma análise aprofundada do texto, é possível refletir sobre alguns aspectos omitidos no resumo, como a indiferença que os habitantes supostamente tinham em relação à unificação da Itália. Em um diálogo entre o Príncipe e um representante do novo governo, torna-se evidente que os sicilianos não eram desejosos de mudanças, pois, segundo Dom Fabrizio, eles eram perfeitos, eram deuses, mesmo vivendo em total miséria.

Outro aspecto que chama atenção no texto é a religiosidade. Essa era tanta, que em Donnafugata o príncipe mantinha um convento, sem falar da igreja em Villa Salina e a estreita relação do Príncipe com um padre jesuíta. É um texto muito interessante, e embora fictício, remete a fatos históricos, como “o desembarque dos mil de Garibaldi” na luta pela unificação da Itália.

Por onde anda o bom jornalismo?

Existem algumas coisas que realmente me tiram do sério, principalmente quando o assunto é a péssima qualidade da informação no noticiário da TV. Trata-se, ao meu ver, da ausência do bom jornalismo. Não é novidade a imprensa se valer de coisas fúteis para prender nossa atenção, sem que nos demos conta de que estamos no meio de uma guerra pela audiência. Uma guerra suja, silenciosa e covarde travada entre os meios de comunicação, com o intuito de adquirir mais investimentos publicitários; que tolhe nossas mentes e fere suscetibilidades sob a égide da liberdade de imprensa.

No tocante à liberdade de imprensa, gostaria de fazer uma observação particular, que julgo muito justa e oportuna: ela é recente e, infelizmente, pouco conhecida no Brasil. É lógico que em um “sistema democrático” – políticos e mídia adoram essas palavras mágicas – todos têm seus direitos assegurados, especialmente o da informação. Porém, em nossa história houve um período de estagnação, no qual a liberdade de pensar e divulgar idéias que confrontassem os que estavam no poder era crime, e punida severamente. Ouso afirmar que a liberdade de imprensa foi a maior vítima daqueles tempos turbulentos.

Mas passado o truculento período da Ditadura Militar, eis que a liberdade de imprensa retornou aos noticiários e, aos poucos, ganhou espaço. Ao meu ver uma coisa maravilhosa, não fosse um detalhe crucial: seria necessário aprender novamente o significado de liberdade antes de empregá-la na imprensa. Não ouso fazer censura, posando de moralista. Isso é coisa típica de quem carece de argumentos racionais para legitimar suas idéias e tenta suprir a ausência de argumentos pela imposição. É algo condenável, como condenável também é o alarde que a grande mídia faz em seus noticiários sobre temas polêmicos, explorando a miséria humana até a exaustão.

Um exemplo disso é o “Caso da menina Isabela”, brutalmente assassinada pelo pai e a madrasta. O fato foi amplamente, digo, exaustivamente divulgado, e nos mórbidos detalhes, muitas vezes empregando-se a linguagem emocional com o intuito de comover, afinal, isso dá mais audiência do que simplesmente informar. O tal “Caso”, transformou-se, para mim, em um espetáculo repleto de drama, e revolta, exaustivamente abordado por plantões até na porta da cadeia, expondo para toda uma perplexa e curiosa nação a face cruel de um pai e uma madrasta que mataram uma menina indefesa. Desde o início os suspeitos estavam sendo expostos à fúria da população, mesmo antes da conclusão dos laudos. A trama dessa triste novela chamada de “O caso Isabela” extrapolou a ficção e transformou-se na versão brasileira do seriado norte-americano “CSI”, com a imprensa a demonstrar como foi feita a perícia, de que forma chegaram às conclusões e etc. O fato é que por mais triste que seja a morte da menina Isabela talvez se saiba muito mais sobre ela e sua família, que das pessoas mais próximas a nós, como o desempenho dos filhos na escola, por exemplo.

Sinceramente, não sei o que pode ser mais assombroso, se a frieza dos criminosos ou a entrevista “exclusiva” com a mãe da vítima num domingo, dia das mães, para o programa “Fantástico”. É Fantasticamente horrendo esse espetáculo sensacionalista.

Para mim, liberdade não está dissociada da responsabilidade. A liberdade começa na observância dos deveres e não apenas dos direitos. Ignorar esse aspecto dentro da “liberdade de imprensa” que todo mundo fala, mas ninguém define, é fomentar práticas antiprofissionais que podem induzir ao erro e total deturpação dos valores vigentes na “sociedade democrática” – eis outro termo em voga, adorado pela mídia e pelos políticos.

Para entender como o abuso da liberdade de imprensa pode destruir as reputações nessa guerra insana entre meios de comunicação, admitamos a hipótese de inocência do pai e da madrasta da menina. Nesse caso, como se sentiriam essas pessoas que tiveram um ente querido arrebatado de seu convívio? Fossem acusados de seu assassinato, encarcerados e com a integridade física ameaçada por uma multidão que, incentivada pela insensatez das matérias sensacionalistas, exigia justiça, pressionando órgãos públicos para que rapidamente apresentassem um culpado? Como estaria a integridade moral dessas pessoas? Que diria a imprensa? Dispensariam o mesmo tempo gasto com as matérias sensacionalistas que os denegriram para inocentá-los, ou dariam a desculpa de que estavam exercendo o dever de informar?

Sinceramente, penso que liberdade e responsabilidade na imprensa devem ser palavras sinônimas. Perdoem-me se pareço pretensioso em minhas observações, mas ao meu ver, esses execráveis espetáculos só podem ser combatidos se junto à liberdade de imprensa pudermos exigir mais respeito aos seres humanos, mesmo os criminosos, e cobrando um posicionamento ético e responsável dos meios de comunicação. Essas são as características que só o bom jornalismo é capaz de realizar.

Agora, pra encerrar de vez o que penso de toda essa asneira que vejo na TV, pediria que se alguém visse o bom jornalismo perambulando por aí, pedisse-lhe para que retornasse urgentemente.

Luis Ângelo Rosso Vigil